A insurreição de Queimado, ocorrida no interior do município da Serra (ES), atualmente na Região Metropolitana de Vitória (ES), foi o principal movimento contra a escravidão ocorrido o Espírito Santo

Doze dias após o comendador da Imperial Ordem de Cristo e advogado, Antônio Joaquim Siqueira, ser empossado pelo imperador Dom Pedro II como presidente da Província do Espírito Santo (7 de março de 1849 a 2 de agosto de 1849), ocorreu na localidade de São José do Queimado, atualmente na Serra (ES), em 19 de março 1849 a Revolta de Queimado, principal movimento contra a escravidão no Espírito Santo. Nesta última quarta-feira, os 176 anos dessa revolta foram lembrados durante sessão ordinária da Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales).
A revolta que de acordo com a Resolução nº 4/1992 da Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo (Secult), que promoveu o tombamento das ruínas da da Igreja de São José de Queimados, com a inscrição nº 183, folhas 30 v e 31 no Livro do Tombo Histórico, traz um alerta para a denominação do movimento contra a escravidão. É o uso indevido da expressão “insurreição.” E justifica o motivo:
“Em março de 1849, São José do Queimado foi palco de uma Insurreição (as classes dominantes usavam esse nome para se referir à Revolta) que foi uma das maiores rebeliões a favor da libertação, ou seja, da alforria dos negros escravizados na província do Espírito Santo, e uma das maiores na época em que ocorreu, ou seja, no Período Imperial do Brasil.” Ou seja, a elite evitava o nome “revolta” para usar a palavra “Insurreição.”
A vila do Queimado, atualmente em um ponto isolado no interior da Serra, foi no Século XIX um importante ponto de conexão para os que transitavam pelo Rio Santa Maria e as primeiras décadas do século seguinte. Com um porto dinamizado por sua estratégica posição, em dia de grandes festejos marcados por bandeirolas, guirlandas e fogos de artifício, a imagem de São José vinda de Vitória, desde o cais do Imperador, em disputado cortejo no qual participavam autoridades eclesiásticas e políticos de relevância à época.
“Elite branca da Serra menosprezava a luta dos negros”, diz o relato
“Por muitos anos a população branca e rica da cidade de Serra e do Espírito Santo tentaram, de certa forma, diminuir a importância do fato histórico ocorrido no distrito de São José do Queimado, menosprezando a luta dos negros pela liberdade. Naquela localidade sempre ocorreu fugas de escravos, porém, a Insurreição do Queimado foi uma revolta que durou até Elisiário, um dos líderes do Movimento, ter sido preso cinco dias depois do início da Insurreição, no dia 23 de março”, prossegue a discrição que justificou para o tombamento da igreja histórica.
“Cerca de trezentos negros participaram do levante; eles iam de fazenda em fazenda clamando a todos os escravos o apoio ao movimento. O padre Gregório de Bene,foi o maior interessado na construção da igreja, o autor dos boatos que, como recompensa pela ajuda durante os horários de folga, os negros escravizados ganhariam a liberdade, a ser concedida no do da inauguração. Nesse dia, os negros revoltados porque a tal liberdade não era declarada, começaram um protesto. Os senhores, temerosos das consequências, chamaram tropas militares, que investiram contra os protestantes para dispersá los, ferindo uns e matando outros. Houve reação e a luta tomou características de verdadeira guerra”, continua.
O historiador Wilson Lopes de Resende, em obra de 1949, com o título “A Insurreição de 1849 na Província do Espírito Santo”, comenta sobre o Frei Gregório. Diz o historiador que o frade foi um desses heróicos missionários catequistas que sempre foram contra a escravidão. Em razão de sua participação a favor dos escravos, Padre Gregório foi preso pela força policial do então presidente de Província Antônio Joaquim Siqueira, no dia 20 de março de 1849 e depois foi expulso do Espírito Santo.
No dia 7 de dezembro de 1849, após serem presos pela força policial, cinco presos conseguiram fugir da prisão. Como não foi encontrado sinal de arrombamento, a fuga foi atribuída a um milagre de Nossa Senhora da Penha. Os negros fugiram para as mata do Mestre Álvaro e do Mochuara e alguns chegaram a construir um quilombo na região de Cariacica (ES). Numa clara alusão ao herói Zumbi dos Palmares, Elisiário tornou-se uma lenda, sendo cognominado o Zumbi da Serra.

Ruína da Igreja de São José do Queimado
O que diz a “Catalogo do Patrimônio Arquitetônico” da Secult sobre a Igreja de São José do Queimado:
- “Situada em sítio elevado, próximo à margem esquerda do rio Santa Maria da Vitória, a igreja de São José do Queimado tem sua pedra fundamental cimentada em 15 de agosto de 1845. Inicialmente, a existência da igreja de São José do Queimado está vinculada a um projeto de cunho religioso, protagonizado pelo frei franciscano Gregório José Maria de Bene, responsável pela decisão de construir o templo na freguesia do Queimado, um pouso dos canoeiros do Santa Maria, entre Cachoeiro de Santa Leopoldina e a capital Vitória. Para viabilizar seu projeto, estrategicamente, frei Gregório de Bene se alia a uma segunda ideia. Essa, coletiva e de cunho político, é conduzida por escravos liderados por Elisiário que, mobilizados pelo projeto da liberdade, se dedicam, noite e dia, à obra da igreja. Isso porque, para viabilizar seu projeto, em troca da construção da igreja, como relatado pela história, o frei promete aos negros escravos a almejada alforria.
- Contudo, sem as condições concretas de realização de seu compromisso frei Gregório de Bene rompe com o acordo, incitando o movimento insurrecional do Queimado, levante iniciado no dia de 19 de março de 1849, dia de São José, data da prometida libertação. Mais de duzentos homens participam da luta, agora conduzidos por Chico Prego, em movimento cujo impacto na sociedade da época pode ser aferido pela rapidez e violência da ação contrária. Finalizada com a entrega de trinta escravos a seus proprietários e o aprisionamento de outros trinta e seis, além dos líderes Chico Prego, João da Viúva Monteiro, Elisiário e Carlos, a Insurreição do Queimado tem em seu desfecho final, o enforcamento de Chico Prego próximo à matriz da Serra e João, em frente à igreja que ajudou a construir, o sinal mais evidente da força de sua ameaça.”
- A igreja, uma homenagem a São José, era uma construção constituída de dois volumes correspondentes à nave e à capela-mor, internamente interligados por um robusto arco cruzeiro, e externamente diferenciados por sua largura e altura. A cobertura, estruturada em madeira e realizada com telhas de barro do tipo capa-canal, possuía dois planos unidos pela cumeeira disposta perpendicularmente ao plano da fachada. Essa tinha sua composição dominada por um frontão de singelo traçado curvilíneo e pela articulada disposição da porta e das três janelas sobre o coro. Na frente, um átrio, de mesma largura da fachada, fechado nas laterais por mureta e na frente por uma singela cerca, era acessado por uma pequena escada em semicírculo, um elemento singelo, mas indicador do discreto refinamento estético de seu idealizador. Situada em frente a um adro resultante do desnível do terreno, a igreja se impunha ao seu entorno pelo caráter singular de sua implantação e disposição frontal à pequena vila de São José do Queimado.”
Circuito Histórico, Religioso, Turístico e Gastronômico
Os 176 anos da Revolta de Queimado foi lembrado nesta última quarta-feira, na Ales, pelo deputado estadual Fábio Duarte (Rede), que aproveitou a ocasião para homenagear o movimento por meio de um projeto de lei (PL). O parlamentar falou sobre o teor do seu PL 159/2025, que cria o Circuito Histórico, Religioso, Turístico e Gastronômico de São José do Queimado, considerando-o como de relevante importância para do Espírito Santo.
“Temos, de uma vez por todas. que resgatar, preservar e valorizar uma das páginas mais importantes da histórica capixaba”, disse o deputado. “Esse levante não só marcou a história da Serra e do Espírito Santo, mas também contribui para o processo de abolição da escravatura do Brasil”, salientou. “É uma história que precisa ser recontada, relembrada e celebrada sempre”, complementou.
Conforme o texto do PL, o circuito envolve pontos como a Praça Oito, no Centro Histórico de Vitória, onde os revoltosos foram condenados, passando pelo agroturismo de Pitanga, e pelo centro da Serra – onde estão a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, a estátua de Chico Prego, o Museu Histórico, e o Casarão do Miguel. A rota segue até o sítio histórico e arqueológico de São José do Queimado, local do levante de 1849.